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Sindicato Nacional Democrático da Ferrovia

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Os comboios de Schrödinger

A física quântica pode ser a chave para perceber o que se passa no nosso país a nível ferroviário. Tal como o famoso gato, os comboios em Portugal estão num estado vivo-morto: dependendo da observação, podem estar mortos ou vivos.

No primeiro semestre, perante problemas que se avolumavam e soluções ignoradas ou mesmo rejeitadas pela tutela, o Governo travava nos jornais uma luta com a CP. A CP, perante a escassez de meios, queria reduzir a oferta. Entendia que parte da oferta que tinha, na realidade, não existia. A falta de comboios obrigava à sua supressão continuada. Mas o ministério achava que essa oferta era real, pois estava nos horários.

Em Agosto, provavelmente alguém do ministério finalmente abriu a tampa da caixa onde estavam guardados os comboios e lá viu que estavam de facto mortos. Lá se alteraram os horários para se reduzir a oferta e adaptar mais ou menos aos meios que existiam.

Entretanto a oferta, com a pressão pública, foi retomada. Onde a CP via comboios avariados e sem peças, o ministério via composições saudáveis que só não andavam por manifesta falta de horários para os utilizar. Nasceram então os horários de Schrödinger, horários que na perspectiva da CP estavam mortos ainda antes de nascerem mas que na perspectiva do Ministério iam ocupar os comboios que se amontoavam cada vez mais nas oficinas.

O resultado tem tanto de espantoso como de imprevisível: a rede ferroviária de Schrödinger. É ao mesmo tempo uma rede que funciona e uma rede que não funciona. Funciona porque tem horários e serviços tabelados e anunciados, não funciona porque não tem material para os realizar.

As Unidades Quádruplas Eléctricas de Schrödinger da linha de Sintra, por exemplo, ao mesmo tempo asseguram e não asseguram esses serviços urbanos. Esta semana por exemplo existiu sempre a família Alverca – Sintra mas, ao mesmo tempo, não existiu quase nunca a família Alverca – Sintra. Na prática, depende, como na experiência, do observador. Se utilizar os comboios, estão mortos. Mas se não os utilizar, estão vivos.

Os Intercidades de Schrödinger para Évora são outro bom exemplo. Tabelados como Intercidades, vendidos como Intercidades e com marcha traçada para 200 km/h, há meses que são feitos por material de serviço regional de 3ª categoria e limitados a 120 km/h. O Intercidades para Évora também existe e não existe ao mesmo tempo. Talvez com o sucesso excitante desta ligação, a 9 de Dezembro igual fórmula será instalada no eixo Lisboa – Covilhã, para onde se anuncia a recuperação das carruagens Intercidades. Como 40% desse parque está em estados quânticos distintos consoante a observação, é possível que os Intercidades desse eixo possam largar as UTE 2240 com interior de Intercidades e adiram também ao principal serviço nacional, o serviço ferroviário de Schrödinger.

Por estes dias, também um dos oito comboios pendulares que ainda circulam (de 10) passou a poder ser designado como um CPAS – Comboio de Pendulação Activa de Schrödinger. Em 9 dias acumulou 8 avarias em linha, vários pedidos de socorro, transbordo de passageiros ou viagens feitas a meia potência, por avarias várias. O comboio não é encostado em oficina, senão também os serviços Alfa Pendular poderão passar a ser Alfa Schrödinger, e vai rolando por isso num estado vivo-morto. Ora vive, ora morre, depende.

Glória aos grandes físicos deste país que vão aprofundando o conhecimento em quântica ferroviária. Tal como os caminhos de ferro alemães a seguir à 2ª Guerra Mundial, os caminhos de ferro portugueses estão vivos e mortos. Depende apenas do observador ter dois dedos de testa ou de ser governante.
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